segunda-feira, 25 de julho de 2011

Enquanto a Amy é assunto...

Amanda Pioli Ribeiro

A morte faz seu trabalho por todo o planeta: cidadãos da Noruega enterram mais de 92 mortos vítimas de um atentado; o governo brasileiro fica fora do programa de remédios genéricos usados no tratamento de portadores do vírus HIV, causando dúvidas quanto ao futuro dos mesmos; por mês, milhares de adultos e crianças morrem nas “estradas da morte” da África; (continua...).

Entendo que Amy Winehouse é conhecida em diversos países, e, por isso, a repercussão de sua morte e de sua conduta – aparentemente, um erro que a levou a morte - sejam motivos para inúmeras discussões. Sem falar, do espaço musical que ela conquistou durante sua carreira.

Eu não quero questionar nada disso.

A questão é o espaço que a mídia vem cedendo para essa morte como se nenhum outro acontecimento fosse passível de igualdade ou superação de valor. (Em minha opinião, destinar mais tempo a morte de uma única pessoa do que a uma centena é uma escolha sensacionalista e indigna com tantas “almas”).

Citarei como exemplo de "importância" dois assuntos que precisam ser discutidos – assuntos de vida, que facilmente têm se transformado em morte.

Falar da África é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que é sempre pauta e, portanto, assunto recorrente em todas as sociedades, o descaso com o mesmo assunto é muito grande, deixando-o quase anulado. Quando um jornal cita esse continente tão negligenciado, provavelmente, é porque não tinha outro assunto mais "quente" ou que provocasse mais comoção – afinal, o que não falta em temas africanos é drama humano.

A última notícia surgiu dias antes da morte da cantora e se referia às “estradas da morte” africanas. Essas estradas são, na verdade, os caminhos que ligam regiões devastadas pela seca e por diferentes guerras a campos de refugiados, auxiliados pela ONU. Durante esses caminhos – costumeiramente muito longos – mães vêem seus filhos morrerem por não agüentarem a falta de comida e água. Morrem, seguindo uma cadeia de fatores, graças ao desprezo do mundo para com eles.

Diante dessa situação subumana, organizações internacionais e ONGs emitem diferentes comunicados e cobram uma atitude. Alertam o mundo. Fazem barulho. Chamam a atenção. E a conseguem. Até que 5 minutos depois, outro acontecimento atraia os holofotes. Provavelmente, outro assunto que demande menos tempo de trabalho e/ou investimento. Citando Gil Vicente, “todo o mundo” busca dinheiro; “ninguém”, a consciência.

Aqui no Brasil, a exclusão do nosso sistema de saúde do convênio com a fabricante de medicamentos genéricos para o tratamento de doenças relacionadas ao vírus HIV coloca mais um problema para um Governo que tem todas as suas vertentes para remendar. Não conseguir o convênio foi só mais uma lacuna no sistema caótico de saúde brasileiro.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o tratado seria assinado entre a empresa “Pool de Patentes de Medicamento” (mantida pelo Unitaid, organização criada com apoio do Brasil para ajudar países pobres no tratamento de doenças) - e uma farmacêutica privada, o que possibilitaria a queda do valor do tratamento de doenças como a AIDS - que possui um alto custo em longo prazo. A exclusão já está sendo criticada por diferentes grupos que alegam que foram contrariados dois princípios do Pool. O primeiro seria de que todos os países em desenvolvimento seriam beneficiados e, o segundo, de que não existiria restrição não técnica à fabricação. Nessa situação ainda não bem esclarecida, não há culpados. Mas, sem dúvidas, há prejudicados.

Em respeito a memória de Amy Winehouse, já peço desculpas. Mas discutir a morte da cantora por mais de um dia, diante de todos os – na maioria, trágicos - acontecimentos? Eu acho que não.

sábado, 23 de julho de 2011

O mundo sob a sombra do terrorismo - Parte 2

De um dia para o outro, alguns acontecimentos mudaram. Conceitos importantes foram alterados.
O que antes era um "tiroteio" agora já é devidamente chamado de "massacre" e "tragédia nacional". E o número de mortos que ONTEM a polícia não confirmava chagar a 20 (embora soubesse que ia aumentar), hoje - até esse momento - já são noticiados como totalizando 92 (85 só do "tiroteio").

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O mundo sob a sombra do terrorismo

Amanda Pioli Ribeiro

Aparentemente, a convicção de que estamos na “era do terrorismo” foi sacramentada hoje. Pelo menos, é a conclusão que todos parecem ter chegado com os ataques sofridos pela Noruega na manhã dessa sexta-feira (horário de Brasília), 22 de julho.

Dois ataques diferentes foram realizados. O primeiro aconteceu na sede do governo norueguês, na capital, Oslo. Uma bomba explodiu matando, ao menos, oito pessoas e destruindo parcialmente o prédio.

Horas depois, o segundo alvo foi um acampamento de jovens, ao noroeste da capital, formado por integrantes do Partido Trabalhista Norueguês, ao qual pertence Jens Stoltenberg, primeiro-ministro do país. Números oficiais informam que morreram, ali, nove pessoas, depois que um homem, ainda não identificado e vestido como policial, começou um tiroteio. Ainda não se sabe se outras pessoas participaram.

Boatos e testemunhas elevam o total de vitimas dos atentados para mais de 20. O governo não confirma, mas afirma que os números devem aumentar.

A principal pergunta em casos como esse é sempre a mesma: Por quê? Qual a razão do ataque? Provavelmente, a dúvida aumenta ainda mais quando a atuação da Noruega no mundo é questionada Afinal, é impossível negar que, a primeira vista, o Reino da Noruega (como é oficialmente registrado) não tem muita representatividade. Ou, pelo menos, não aparenta ter.

Mas o fato é que essa monarquia (sim! A Inglaterra e a rainha Elizabeth não são as únicas a sustentar o título) também faz parte de organizações internacionais, e, portanto, interfere em decisões que podem afetar, mesmo que indiretamente, inúmeros países.

No olho do furacão desse ataque está a participação da Noruega como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A hipótese de que o país de Stoltenberg tenha sofrido retaliações pela intervenção da OTAN em diferentes conflitos nacionalistas que insurgiram esse ano, principalmente na Líbia e no Afeganistão, apareceu logo em seguida dos ataques, e pareceu uma alternativa crível e muito possível na era do terrorismo.

Diante dessa certeza de diversos meios, estudiosos, e governantes, que ainda é incentivada pelo fato de a Noruega já ter sofrido ameaças por seu envolvimento nos conflitos, a reivindicação da autoria dos ataques pelo grupo islâmico Ansar al-Yihad al-Alami pareceu surgir só para confirmar as teorias. Entretanto, a autoria dos ataques foi negada pelo mesmo grupo que a reivindicava horas antes.

Mesmo que essa teoria estivesse (ou esteja) certa, a pergunta de “Por que a Noruega?” ainda continua. A OTAN é uma aliança militar de 28 países, sendo que alguns deles teriam muitos mais motivos de serem atacados (desde atitudes megalomaníacas à rixas do passado). Outros países nórdicos também têm permanecido em estado de alerta devido a constantes ameaças.

No meio dessa “enxurrada” de notícias sobre os “ataques terroristas” naquele país, uma informação tem sido negligenciada: a polícia norueguesa - portanto, diretamente afetada e preocupada com o ocorrido – não acredita que os ataques estejam relacionados ao terrorismo internacional. Tal negativa também foi mantida pelo jornal local “Nationen”, que afirmou que os ataques estão, provavelmente, relacionados a questões do sistema político nacional.

O mundo parece querer ignorar essa opinião para defender uma teoria que os matem seguros. Não que terrorismo seja mais fácil de combater, ou menos agressivo. Mas ele é mais “seguro” no sentido que já é uma ideia a que todos se acostumaram. “Mais um ataque terrorista” ser notícia é mais bem assimilado – e, até mesmo, mais facilmente ignorado – do que “população ataca governo em busca de mudanças” (não que seja isso o que realmente aconteceu). Essa é a dinâmica atual do mundo. A dinâmica adquirida depois dos ataques de 11 de setembro.

As fotos dos ataques enfatizam os estragos e, principalmente, os feridos, aumentando a revolta e o medo que afligem a sociedade do século XXI diariamente. Longe de querer afirmar que não é esse o foco que deve ser dado – afinal, isso é notícia -, atrevo-me a afirmar que duas questões devem ser pensadas: a)os danos podiam ser piores (provavelmente essa é uma visão fatalista do mundo. Mas é verdade.) b) a globalização do mundo deixa todos tão interligados e absorvidos pelos problemas externos, que é mais fácil acreditar em um ataque estrangeiro, do que perceber que esse mesmo ataque pode ter sido o reflexo da insatisfação de uma nação que parece se esconder no meio desse mundo conturbado e sempre à sombra do terrorismo.

Então, é isso!

Nesse espaço (criado depois de muita enrolação), eu pretendo escrever materiais opinativos de alguma utilidade.
Pensamentos de assuntos pessoais guardo para o meu diário. Mas pensamentos e impressões de assuntos cotidianos espero expressar. Objetiva ou subjetivamente. Afinal, meu mundo, minhas ideias!