Amanda Pioli Ribeiro
A morte faz seu trabalho por todo o planeta: cidadãos da Noruega enterram mais de 92 mortos vítimas de um atentado; o governo brasileiro fica fora do programa de remédios genéricos usados no tratamento de portadores do vírus HIV, causando dúvidas quanto ao futuro dos mesmos; por mês, milhares de adultos e crianças morrem nas “estradas da morte” da África; (continua...).
Entendo que Amy Winehouse é conhecida em diversos países, e, por isso, a repercussão de sua morte e de sua conduta – aparentemente, um erro que a levou a morte - sejam motivos para inúmeras discussões. Sem falar, do espaço musical que ela conquistou durante sua carreira.
Eu não quero questionar nada disso.
A questão é o espaço que a mídia vem cedendo para essa morte como se nenhum outro acontecimento fosse passível de igualdade ou superação de valor. (Em minha opinião, destinar mais tempo a morte de uma única pessoa do que a uma centena é uma escolha sensacionalista e indigna com tantas “almas”).
Citarei como exemplo de "importância" dois assuntos que precisam ser discutidos – assuntos de vida, que facilmente têm se transformado em morte.
Falar da África é um paradoxo. Ao mesmo tempo em que é sempre pauta e, portanto, assunto recorrente em todas as sociedades, o descaso com o mesmo assunto é muito grande, deixando-o quase anulado. Quando um jornal cita esse continente tão negligenciado, provavelmente, é porque não tinha outro assunto mais "quente" ou que provocasse mais comoção – afinal, o que não falta em temas africanos é drama humano.
A última notícia surgiu dias antes da morte da cantora e se referia às “estradas da morte” africanas. Essas estradas são, na verdade, os caminhos que ligam regiões devastadas pela seca e por diferentes guerras a campos de refugiados, auxiliados pela ONU. Durante esses caminhos – costumeiramente muito longos – mães vêem seus filhos morrerem por não agüentarem a falta de comida e água. Morrem, seguindo uma cadeia de fatores, graças ao desprezo do mundo para com eles.
Diante dessa situação subumana, organizações internacionais e ONGs emitem diferentes comunicados e cobram uma atitude. Alertam o mundo. Fazem barulho. Chamam a atenção. E a conseguem. Até que 5 minutos depois, outro acontecimento atraia os holofotes. Provavelmente, outro assunto que demande menos tempo de trabalho e/ou investimento. Citando Gil Vicente, “todo o mundo” busca dinheiro; “ninguém”, a consciência.
Aqui no Brasil, a exclusão do nosso sistema de saúde do convênio com a fabricante de medicamentos genéricos para o tratamento de doenças relacionadas ao vírus HIV coloca mais um problema para um Governo que tem todas as suas vertentes para remendar. Não conseguir o convênio foi só mais uma lacuna no sistema caótico de saúde brasileiro.
Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o tratado seria assinado entre a empresa “Pool de Patentes de Medicamento” (mantida pelo Unitaid, organização criada com apoio do Brasil para ajudar países pobres no tratamento de doenças) - e uma farmacêutica privada, o que possibilitaria a queda do valor do tratamento de doenças como a AIDS - que possui um alto custo em longo prazo. A exclusão já está sendo criticada por diferentes grupos que alegam que foram contrariados dois princípios do Pool. O primeiro seria de que todos os países em desenvolvimento seriam beneficiados e, o segundo, de que não existiria restrição não técnica à fabricação. Nessa situação ainda não bem esclarecida, não há culpados. Mas, sem dúvidas, há prejudicados.
Em respeito a memória de Amy Winehouse, já peço desculpas. Mas discutir a morte da cantora por mais de um dia, diante de todos os – na maioria, trágicos - acontecimentos? Eu acho que não.
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