Amanda Pioli Ribeiro
Aparentemente, a convicção de que estamos na “era do terrorismo” foi sacramentada hoje. Pelo menos, é a conclusão que todos parecem ter chegado com os ataques sofridos pela Noruega na manhã dessa sexta-feira (horário de Brasília), 22 de julho.
Dois ataques diferentes foram realizados. O primeiro aconteceu na sede do governo norueguês, na capital, Oslo. Uma bomba explodiu matando, ao menos, oito pessoas e destruindo parcialmente o prédio.
Horas depois, o segundo alvo foi um acampamento de jovens, ao noroeste da capital, formado por integrantes do Partido Trabalhista Norueguês, ao qual pertence Jens Stoltenberg, primeiro-ministro do país. Números oficiais informam que morreram, ali, nove pessoas, depois que um homem, ainda não identificado e vestido como policial, começou um tiroteio. Ainda não se sabe se outras pessoas participaram.
Boatos e testemunhas elevam o total de vitimas dos atentados para mais de 20. O governo não confirma, mas afirma que os números devem aumentar.
A principal pergunta em casos como esse é sempre a mesma: Por quê? Qual a razão do ataque? Provavelmente, a dúvida aumenta ainda mais quando a atuação da Noruega no mundo é questionada Afinal, é impossível negar que, a primeira vista, o Reino da Noruega (como é oficialmente registrado) não tem muita representatividade. Ou, pelo menos, não aparenta ter.
Mas o fato é que essa monarquia (sim! A Inglaterra e a rainha Elizabeth não são as únicas a sustentar o título) também faz parte de organizações internacionais, e, portanto, interfere em decisões que podem afetar, mesmo que indiretamente, inúmeros países.
No olho do furacão desse ataque está a participação da Noruega como membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A hipótese de que o país de Stoltenberg tenha sofrido retaliações pela intervenção da OTAN em diferentes conflitos nacionalistas que insurgiram esse ano, principalmente na Líbia e no Afeganistão, apareceu logo em seguida dos ataques, e pareceu uma alternativa crível e muito possível na era do terrorismo.
Diante dessa certeza de diversos meios, estudiosos, e governantes, que ainda é incentivada pelo fato de a Noruega já ter sofrido ameaças por seu envolvimento nos conflitos, a reivindicação da autoria dos ataques pelo grupo islâmico Ansar al-Yihad al-Alami pareceu surgir só para confirmar as teorias. Entretanto, a autoria dos ataques foi negada pelo mesmo grupo que a reivindicava horas antes.
Mesmo que essa teoria estivesse (ou esteja) certa, a pergunta de “Por que a Noruega?” ainda continua. A OTAN é uma aliança militar de 28 países, sendo que alguns deles teriam muitos mais motivos de serem atacados (desde atitudes megalomaníacas à rixas do passado). Outros países nórdicos também têm permanecido em estado de alerta devido a constantes ameaças.
No meio dessa “enxurrada” de notícias sobre os “ataques terroristas” naquele país, uma informação tem sido negligenciada: a polícia norueguesa - portanto, diretamente afetada e preocupada com o ocorrido – não acredita que os ataques estejam relacionados ao terrorismo internacional. Tal negativa também foi mantida pelo jornal local “Nationen”, que afirmou que os ataques estão, provavelmente, relacionados a questões do sistema político nacional.
O mundo parece querer ignorar essa opinião para defender uma teoria que os matem seguros. Não que terrorismo seja mais fácil de combater, ou menos agressivo. Mas ele é mais “seguro” no sentido que já é uma ideia a que todos se acostumaram. “Mais um ataque terrorista” ser notícia é mais bem assimilado – e, até mesmo, mais facilmente ignorado – do que “população ataca governo em busca de mudanças” (não que seja isso o que realmente aconteceu). Essa é a dinâmica atual do mundo. A dinâmica adquirida depois dos ataques de 11 de setembro.
As fotos dos ataques enfatizam os estragos e, principalmente, os feridos, aumentando a revolta e o medo que afligem a sociedade do século XXI diariamente. Longe de querer afirmar que não é esse o foco que deve ser dado – afinal, isso é notícia -, atrevo-me a afirmar que duas questões devem ser pensadas: a)os danos podiam ser piores (provavelmente essa é uma visão fatalista do mundo. Mas é verdade.) b) a globalização do mundo deixa todos tão interligados e absorvidos pelos problemas externos, que é mais fácil acreditar em um ataque estrangeiro, do que perceber que esse mesmo ataque pode ter sido o reflexo da insatisfação de uma nação que parece se esconder no meio desse mundo conturbado e sempre à sombra do terrorismo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário